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terça-feira, 8 de maio de 2007

Entrevista: Luís Carlos Maciel


17 de março, sábado fresco no Rio de Janeiro. Comemos uma feijoada e fomos direto ao Leblon, conversar com o Guru da Contracultura: Luiz Carlos Maciel. Já falamos bastante dele no blog: foi editor da Rolling Stone brasileira, colunista do Pasquim, hippie e intelectual.

Maciel nos recebeu sorridente e abriu o apartamento cheio de livros, quadros e mobília antiga. Sentou na poltrona, ligamos o gravador e ele disse:

- Não quero que vocês interpretem como má vontade, mas eu não tenho muita coisa pra dizer, não! Acho que vai ser meio decepcionante, eu penso que pô, as meninas vão achar que eu tô de sacanagem!

Que modéstia, Maciel! Foi mais de uma hora de gravação, initerrupta. Ele passou sua impressão madura, de trinta anos depois, dos conceitos que foram abordados em "De volta para o futuro".

Ele começou falando da contracultura...
"Por causa da guerra do Vietnã, uma das manifestações mais dramáticas era a queima de certificados militares. Os rapazes da época queimavam seus certificados de alistamento militar e conseqüentemente se tornavam marginais. Foi dessa marginalização que cresceu o movimento hippie, porque eles viraram hippies, fantasiados, usavam aquelas roupas coloridas, deixavam o cabelo crescer, passavam a fumar maconha o tempo inteiro, tomavam ácido de vez em quando e começou essa chamada contracultura.

Havia uma indignação contra o sistema, contra o mundo organizado que parecia uma organização louca, que destinava a criar guerra, a matar gente e adoecer as pessoas, transformar o homem comum, careta, o homem médio em neurótico que só servia para enriquecer os consultórios dos psicanalistas e coisas semelhantes, então começaram a fazer um tipo de manifestação cultural que procurava fugir dos parâmetros, ser uma coisa contra, uma coisa que a imprensa chamou então de contracultural, eu falo pelos cotovelos, né? Não sei nem o que você me perguntou (risos)".

Depois, falou da valorização do louco...
"A maioria dos meus melhores amigos foram internados. Em culturas primitivas a realidade imediata não era tão estratificada, absoluta, como é na nossa cultura, é uma possibilidade, a realidade tinha infinitas possibilidades. Essa fronteira entre o mago, o iluminado e o louco é meio imprecisa, então a contracultura valorizou até muito o louco.


Muitas pessoas que participaram da contra cultura acabaram em hospícios mesmo, foram internados. Uma das coisas que determinavam esses internamentos era uma substância que foi fundamental na contracultura, foi de uma importância radical, que foi depois sufocada pelo sistema, que foi o ácido de
dietilamida, o famoso LSD ou ácido para os íntimos.

A pessoa tinha certeza de que estava experimentando uma expansão da consciência, pode-se dizer que era uma ilusão, mas eu por exemplo não acho que era uma ilusão. Eu sei que quando eu estava viajando de ácido, eu tinha um conhecimento muito mais amplo da realidade do que eu tenho agora nesse momento, eu sei que minha consciência agora está contraída em relação a como minha consciência se encontrava durante essas experiências. Essas experiências com ácido eram muito reveladoras, as pessoas se sentiam oprimidas até mudar sua maneira de viver e de ver as coisas, isso tudo em graus diferentes e modalidades diferentes conforme os indivíduos, tem uns que descobriram que o dinheiro é o mal da humanidade, e é!


Isso é uma coisa indiscutível, todos os louvores são feitos em nome do dinheiro, você não pode condenar o dinheiro, porque na nossa cultura ele é mais sagrado que Deus. Todo mundo aceita o dinheiro como se ele fosse parte da realidade natural, como se fosse o sol, feito a lua, as estrelas, o mar e o dinheiro. O ser humano e o dinheiro são as coisas intocáveis, então o cara toma ácido e ele acha que descobre que esse Deus intocável é um fetiche, é uma sacanagem que foi criada pelo próprio homem, então ele chegava e pegava todo dinheiro que tinha no bolso e rasgava, queimava, louco! E quem rasga dinheiro é louco! Então já logo internava, já dava uns choques,pra ele botar os pés no chão, né?

Quem estivesse no estilo de vida da contracultura ou psicodélica saía para se divertir e era considerado maluco, não havia diferença, maluco, tinha enlouquecido, pirou! E o termo para classificar essas pessoas era esse, doidão, muito doido e que nas internas viravam um elogio, 'fulano muito doido' quer dizer grande sujeito, ótimo sujeito, você tem que conhecer porque ele é muito doido".

E a Madalena?
"A viagem de ácido revelava aos rapazes a sua porção feminina,vamos dizer assim... a mulher que tem dentro deles e nas moças a sua porção masculina, o homem que tem dentro delas, se tivessem já uma certa tendência, pronto! Aaah, então diziam assim, 'ah, esses meninos tomam ácido viram bichas, viram bichas porque eles queriam ser bichas'. Mas estavam reprimidos, não ouviam as coisas direito e aí o ácido revela, outros não, outros viam sua parte feminina, viam que isso só enriquecia a personalidade deles, mas não os tornavam homossexuais necessariamente.

Tinha aparecido no mercado clandestino um ácido verdinho, então o mito era que os caras do Yes tinham tomado o ácido para fazer aquele disco e por isso que tinham feito a capa verde. O ácido era verde e tinha uns nomes pitorescos, esse era o green não-sei-o-que. Era um ácido particularmente forte, muito forte mesmo e eu... Bom isso não posso contar.

- Ahhhh pode!!!

Não vou contar porque seria mal interpretado!

- Imagina, hahahahahahaha

Eu tomei esse ácido! Na primeira batida do ácido, a mais forte, eu fiquei completamente desentendido, não sabia aonde eu estava e nem quem eu era, me deu uma baixada mais ou menos eu me recuperei, olhei para minha mulher na época e disse assim: “meu nome é Madalena”. Aí ficaram me sacaneando sempre, diziam: “quero falar com a Madalena!”. Mas nem pintou a Madalena, e não fiquei homo por causa disso não!

- Foi só uma expansão de consciência!

Uma expansão de consciência! Disse bem! Agora você já está entendendo, só tá faltando tomar acido agora também, para saber como é que é na pratica".

- ...

As comunidades hippies: para onde foram os outsiders

"Eu conheci algumas e tudo, tinha uma que eu visitava sempre aqui no Rio de Janeiro, mas nunca morei em comunidade não! O negócio da contracultura, de viver em comunidade, eram todos os desgarrados de família que se juntavam. Também se juntava os tipos mais heterogêneos, né? Então podia acontecer de tudo, era muito difícil, se pra dois viverem juntos já era difícil, imagina uma cambada de gente. E até as coisas como amor livre e etc, acabavam virando briga porque o famoso problema do ciúme não foi superado, nunca vi ser superado, sempre diziam “ahhh não tenho ciúme”, e tinha, e acabavam brigando.

- Você acha que aqui no Brasil pela nossa cultura latina, machista foi diferente da realidade americana?

Não sei, talvez aqui as perturbações tenham sido mais graves.

- E pra onde foram essas pessoas?

Existem comunidades hippies até hoje no interior. Outro dia veio um rapaz aqui que tem um centro cultural em Vargem Grande aqui no Rio de Janeiro. Mas é muito difícil manter isso, as comunidades rurais em que as pessoas saem fora do mundo e criam seu próprio mundo. Algumas existem até hoje e os outros cortaram o cabelo, como eu, e ficam fingindo que um dia brigou com todo mundo, mas é um fingimento estratégico, porque você sabe que o maluco tem que enganar os caretas de que ele é careta também, porque senão ele está se arriscando demais, pode ser internado, pode ser choque, pode às vezes ser preso até, ser espancado então o maluco esperto passa por careta.

Até aí, foram só uns 20 minutos de conversa. Logo mais, o resto da entrevista.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Raízes da contracultura: "De volta para o futuro"

Decidimos entrevistar Luiz Carlos Maciel quando soubemos que ele era o editor responsável pela edição brasileira da revista Rolling Stone. Mais tarde, pesquisando, descobrimos que ele tinha uma coluna chamada Underground no Pasquim e mais: Maciel era o “guru da contracultura”. Quando o conhecemos, entendemos o apelido. Agora, que terminei de ler a coletânea de textos “De volta para o futuro”, eu faço referência:

- Obrigada, Luiz Carlos Maciel, por iluminar nosso caminho.

Não se engane pela capa kitsch e pelo pequeno número de páginas. “De volta para o futuro” é uma coletânea de grandes textos de Maciel, escritos para os livros Nova Consciência e Morte organizada, além de colunas do Pasquim. No prefácio, escrito em 2004, o autor resume o espírito de sua geração:

“Não. Não alcançamos a felicidade. Estávamos provavelmente mais perto dela nas décadas abertamente revolucionárias da juventude da minha geração, apesar da violência das repressões externas e internas que então caracterizavam a experiência de estar vivo. Havia um instinto saudável que exigia a transformação, que queria mudar o mundo e a vida em todos os níveis. A primeira manifestação desse instinto foi política mas, em seguida, ele alcançou o comportamento, a postura existencial e a própria dimensão espiritual da experiência de viver”.

Hippismo ingênuo
Maciel estudou nos EUA e se interessou pela contracultura internacional. “Para a contracultura, a razão humana é mais ampla e compreende tanto as imagens dos sentidos quanto a imaginação e intuição”, define. Seu interesse foi classificado pelos intelectuais como um “hippismo ingênuo”. Afinal, como alguém que havia estudado o complexo colonial da cultura brasileira poderia se afundar na cultura estrangeira? Os intelecuais daqui diziam que a contracultura internacional era fruto do “estrangulamento existencial promovido pelas modernas sociedades industriais” e que, por isso, não fazia sentido num país subdesenvolvido como o Brasil. Mas Maciel rebate: o complexo colonial é a assimilação passiva e acrítica – e o que ele pretende é uma compreensão profunda e, a partir daí, a crítica.

Para contar a história da contracultura mundial – e depois adaptá-la à realidade nacional, e à sua própria interpretação – Maciel começa falando da “Bomb Culture”. A sociedade pós segunda guerra cresceu sob temor constante da destruição absoluta – e foram os protestos contra a bomba atômica que ocuparam os jovens intelectuais e artistas antes dos Beatles, a tal beat generation. O símbolo da paz, disseminado pelos hippies mundo afora, é dessa época. O termo “Bomb Culture” é um título de um livro do poeta, músico e pintor Jeff Nutall, que explica o underground partindo de quatro trilhas: música pop, protesto, arte e comportamento existencial marginal do século XX. “Foi a fusão dessas correntes que resultou, com as drogas psicodélicas, no underground, cuja eclosão é assinalada em 1967, pelo surgimento dos hippies e do flower power”, explica Maciel.

A contracultura tem uma série de elementos constitutivos – e o autor fala sobre vários, ao longo dos textos. A seguir, vou tentar explicar resumidamente alguns deles.

As comunidades hippies
Se a idéia da contracultura é criar uma nova sociedade, é preciso que a família - a base das relações sociais - também mude. Para falar das organizações familiares, Maciel evoca Wilhelm Reich, em seus estudos sobre as comunas na união soviética. “Essas comunidades são a forma familiar do futuro. Elas se caracterizam por sua estrutura não-autoritária, pelas relações livres e não compulsivas entre seus membros e pela ausência de repressão sexual”, explica.


Geração mutante
Timothy Leary dizia que a juventude de sua época era composta por seres mutantes, que eram uma guinada no processo de evolução da espécie. Por isso, acabou sendo expulso da faculdade onde lecionava. Maciel explica que, para Leary, “o traço novo mais importante da geração era a vocação religiosa, a tendência natural e espontânea para a experiência mística da consciência cósmica”.

E no Brasil...
A contracultura por aqui, que é o que mais nos interessa, teve regras e características próprias. Maciel diz que Gilberto Gil, em 1969, “forneceu um fundo filosófico influenciado por essas correntes teósoficas ao fenômeno social novo e surpreendente do aparecimento de nossos primeiros hippies pelas estradas do país”. O próprio autor conta que encontrou alguns deles viajando de automóveis – e eles não leram Leary, nem conheciam Buda – eram a resistência tupiniquim, aos modos daqui, às amarras da sociedade.

Eles acreditavam na existência de uma nova geração no planalto de Brasília e sua influência religiosa não estava ligada ao hinduísmo ou ao budismo, mas a correntes ocidentais, como a astrologia. No Brasil, devido à repressão, a imprensa underground era praticamente inexistente, ao contrário dos EUA. Por isso, por aqui, os “ensinamentos da contracultura” eram passados oralmente. “A informação chega pelo ouvido, através de discos de rock ou de papos que, através de um acelerado processo de associação de idéias, desenvolvem-se as formulações mais bizarras e exóticas”, explica Maciel. Contracultura à moda brasileira.

O “segredo transmitido de boca em boca” fazia com que a nossa contracultura crescesse no “segredo e no silêncio”. E o autor dizia que isso era extraordinário: “nesse exato momento, uma alteração profunda de ordem social e cultural se desenvolve, sem análises, sem discussões, sem estudo e – o que é incrível – sem o conhecimento da maioria da população”. E isso define, em grande parte, o recorte que estamos dando ao nosso trabalho: ao que permaneceu esquecido pela maioria.


Em breve, publicaremos alguns trechos da recém-transcrita entrevista. E paz e amor pra você também, Maciel!

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Quem te viu, quem te vê

Quem te viu...

Uma das coisas mais divertidas de fazer esse trabalho é descobrir o passado das pessoas. Estávamos eu e a Aline ontem, na casa da Amarílis.

Tradutora da MTV, consultora de músicas, vendedora de discos e o que mais pintar, conheci a Amarílis num barzinho, semanas atrás. Vi que ela tinha muitas histórias pra contar - além de ter crescido com Os Mutantes na Pompéia, produzia shows e festivais na década de 70. Bom, enfim. Ela vai aparecer mais por aqui. Estávamos lá, e ela chamou um amigo, o Jaques, do Kaleidoscópio, um programa de rádio de rock muito famoso na época.

Aí, no meio das ótimas histórias, Amarílis conta o seguinte:

"O Ritchie era quem trazia os ácidos da Inglaterra. Uma vez, eu estava na casa dele, e ele abriu uma caixa de sapato lotada de ácidos. Dava pra encher as mãos"
...quem te vê: capa do último disco de Ritchie, "Auto-fidelidade".


Ps.: Amanhã, 14h30, vamos na casa do Ronnie Von. Alguma sugestão?

quinta-feira, 8 de março de 2007

Da Wikipedia

Tela de Antônio Peticov: "The Link", 1977

Níveis da Experiência Psicodélica


O Psychedelic Experience FAQ (em inglês) descreve cinco níveis da experiência:

Nível 1:
Aumento das capacidades sensitivas (principalmente visuais), tornando as cores mais "brilhantes". Ligeiras anomalias na memória de curto prazo. Mudanças na comunicação entre ambos os lados do cérebro, tornando a música mais expressiva.

Nível 2:
Cores realçadas, ligeiras alucinações visuais (ex. objetos se movimentam ), desenhos parecem adquirir terceira dimensão. Pensamentos confusos; considerável aumento das capacidades criativas.

Nível 3:
Alucinações visuais claras, tudo parece curvado ou alterado em outros aspectos, caleidoscópios ou imagens fractais vistas nas paredes, paisagens, imagens de pessoas, etc. Alucinações com os olhos fechados se tornam tridimensionais. Há alguma confusão entre os sentidos (ex. o indivíduo começa a "ver os sons como cores"). Distorções na percepção temporal e "momentos eternos". Movimentação corporal se torna extremamente difícil (muito esforço necessário).

Nível 4:
Alucinações extremamente fortes (ex. objetos se fundem com outros). Destruição ou divisão múltipla do ego (ex. objetos parecem conversar com o indivíduo, ou este começa a sentir sensações contraditórias simultaneamente). Alguma perda da realidade. O tempo perde seu significado. Experiências extra-corporais. Fusão dos sentidos.

Nível 5:
Total perda de conexão visual com a realidade. Os sentidos deixam de funcionar em seu estado normal. Total perda da noção de ego. Sensação de fusão do indivíduo com o espaço, outros objetos, ou universo. A perda da realidade torna-se tão severa que desafia sua expressão verbal. Os primeiros estágios são relativamente fáceis de se explicar em termos de mudanças mensuráveis de consciência e padrões cognitivos. Este nível é diferente porque o universo no qual as coisas são normalmente percebidas deixa de existir.

Fonte: Wikipedia