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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Seis mil!

Que alegria!

Alcançamos a marca de seis mil visitantes. Quando começamos o blog, há sete meses, tínhamos alguma pretensão megalomaníaca, mas nem tanto. Além dessa marca considerável, o trabalho vem despertando interesse de muita gente bacana no mundo da música.

Agora, é a reta final - e isso implica mil brigas, falta de tempo e até falta de tesão, às vezes. Como todo mundo, acabamos deixando várias coisas pra última hora e, agora que faltam dois meses pro prazo final, começa a bater o desespero. Já temos três capítulos escritos, mais três em processo de confecção, a todo vapor. Apesar do sufoco, está sendo uma delícia ler as entrevistar e transformar todo o material bruto, de conversas non-sense, em histórias gostosas.

O Welington, o orientador, disse que precisamos escolher entre um estilo mais crônica, focado na vida particular dos entrevistados, nas histórias, ou um estilo mais reportagem, com dados e contextualização. Pela grande dificuldade em conseguir esses dados, e pela enorme riqueza de histórias de nossos personagens, acho que vamos partir para a crônica.

Agora falta pouco. É a parte mais foda, mas estamos sobrevivendo. Ainda faltam entrevistas importantes - tá sendo quase impossível marcar uma entrevista com Arnaldo Baptista. A dita "corte" que o cerca tá empatando a questão. Não sabemos como vai ser, vamos tentando. Fora isso, praticamente todos os capítulos estão com as entrevistas finalizadas. É muita coisa!

Para comemorar a nossa sobrevivência, o sempre feliz Mopho:

sábado, 8 de setembro de 2007

Som Imaginário, a missão

Enquanto lá fora todos aproveitam o feriado maravilhoso, a gente se interna na frente do computador. Como bem disse a Aline, estou no meio de um transe, ouvindo pela 19a vez o primeiro disco do Som Imaginário sem parar, praticamente louca por tabela. 40 páginas de word de entrevista, pra começar a escrever. É mole?

Mas deu pra dar umas risadas (nervosas):

"Era do bom! Vinha da Califórnia. Era uma coisinha, parecia um grafitezinho sextavado cor de laranja, e dava 12 horas de viagem. Sem anfetamina. O Marco Antonio Pena Araújo tomava três, quatro por dia" (Zé Rodrix).

"Ele uma vez sumiu. Sumiu, sumiu, ficamos três dias sem saber dele, começou a dar aquele medo, por mais despreocupado que fosse, porque pela segurança de todos... então qdo descobriram ele tinha ido pro jardim botânico, ficou três dias, achando a vida um espetáculo, aquela coisa..." (Tavito)


"Uma coisa que nos diferenciava de todo mundo é que nós éramos um grupo com liberdade de pensamento político, e também sob o efeito de alguma magia, com tendência a rebeldia, e na época estávamos muito ligados ao espiritismo, budismo, cambomblé e muitas das nossas coisas eram baseados nessas crenças e experiências" (Milton Nascimento)


"Tava difícil até de cantar, o bagulho era tão forte que ficava todo mundo de boca seca, não vinha saliva, a gente ficava com dificuldade de cantar, era uma zoeira" (Fredera)




E viva o Redbull! Transcrições numa noite quente...

Sim, essa vida não tá fácil... prometemos pra nós mesmas queaté o final do feriado teríamos mais 4 capítulos prontos - Módulo 1000, Vímana, Serguei e Som Imgainário... e cá estamos, pra lá de 1 da madruga, sentadas no computador...Trabalhoso mas divertido... algumas pérolas do Lobão (que foi a última fita que eu transcrevi) pra alegrar os corações... Tati tem umas ótimas do Tavito e do Zé Rodrix que ela postará depos que sair do transe...rs...

"Na verdade eu tive a sorte de cair numa banda que... eu queria trepar, foder, as na verdade, parecia um mosteiro. Tudo mto assim... treinava 10 horas por dias. "

"Ele [Luiz Paulo, tecladista do Vímana] parecia o visconde de sabugosa! Ele é totalmente distraído. Quando a gente morava junto, ele saía pelado do banheiro com a toalha na boca, ele tava compondo... com o braço esticado assim, olhando pra cima... tocando no braço... teclado com a mão direita..."

"A primeira doença venéria que eu contraí, foi quando eu entrei no vímana. Pô, eu era semivirgem! Foi num dia do soldado... 25 de agosto de 77, eu fazia 18 anos... E eu pensava, porra, vou ter que comer uma mulher... eu morava ali num lugar em laranjeiras, que tinha o famoso BO, "Buceta de Ouro", um puteiro, uma casa colonial... e eu fui lá... consegui, e na semana seguinte eu consegui dinheiro e fui lá, eu me lembro, sentei lá fazendo pose de cara experiente e pedi um guaraná caçula, hahahhahaa, cheio de chinfa... tava dando a maior bandeira... e na semana seguinte fui de novo e descolei uma gonorréia, o que naquela época era motivo de orgulho... vc praticamente tinha que cantar, era um upgrade... e eu sofria assédios sexuais... hahahahhaa"

"Pô, eu me lembro...a gente tava ensaiando no Teatro Casagrandre, o Fernando nunca foi de verbalizar, ele é mto na dele... aí to eu lá, tocando bateria e vendo tudo lá da frente, tinha assim o Lulu, o Fernando e comecei a ver o Lulu peitar o Fernando, burburinho, daqui a pouco parou todo mundo e eu so vejo o Lulu com aquela boca enorme e eu só vendo a silhueta... daqui a pouco veio...
Fernando: Lulu, deixa eu só falar uma coisa?
Lulu: não, vc não tem razão, não vai falar nada...
Fernando: é que vc ta com bafo de merda, por favor, para de falar...
Aìí Lulu esmureceu, saiu frágil, chorando, ofendidíssimo, a gente ria, e o Fernando tentando explicar... aí depois chega o Lulu, olha pra todo mundo teatralmente, encara todo mundo, pega uma craviola, toca uma musica linda, mto canastrona, “Amanhã, eu prometo, eu vou ser outra pessoa, espere até amanhã”... "


Quem viver, verá!

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Últimas notícias

Qualquer dia desses
A gente se encontra
Pra bater um papo calmo
Um papo calmo pra ficar calmo
E calmamente conversar, conversar
Bater na porta da alma
Longe da loucura
Longe da loucura e do barulho
Dessa cidade, dessa cidade, dessa cidade, dessa cidade

"Balada da Calma", Lula Côrtes, álbum "Rosa de Sangue", 1980

Aos nossos queridos leitores,

Não fiquei tristes com a falta de posts. O grupo está como sempre super f*dido. A Aline foi à Nova Friburgo (RJ), no último final de semana, entrevistar Caetano, do Spectrum. Segundo ela mesma conta, o papo foi incrível e cheio de experiências psicodélicas. Mas, voltando pela Av. Brasil, no Rio, rolou uma coisa bem chata... que depois ela mesma conta, também.

Enquanto isso, aceitamos donativos.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Zeca Jagger

Ezequiel Neves em um porta-retrato, ao lado dos Paralamas, na estante de sua casa

Com um sofrido atraso, vamos falar de Ezequiel Neves. Mineiro só de RG – ele citou a frase de Otto Lara Rezende sobre o estado natal: “a pessoa que nasce em Minas se não sair de Minas é porque nasceu com defeito”. Foi o primeiro jornalista dedicado ao rock – tinha uma coluna no Jornal da Tarde e, posteriormente, na Rolling Stone de Luiz Carlos Maciel. Por isso, Zeca foi um de nossos primeiros entrevistados.

Subimos a ladeira do morro do Pavãozinho, na divisa de Ipanema e Copacabana, na manhã de 18 de março. Ele mora em um simpático predinho na boca do morro, e se diverte chamando o lugar de “little peacock”. O apartamento foi dado por Cazuza, de quem foi produtor e mentor espiritual e carnal. Zeca está com 73 anos, cansado, mas fez a gente rir muito. Não deixou que o fotografássemos, mas deixou que documentássemos a casa e seu fantástico arquivo de bugigangas. Divirtam-se com os retratos da casa e com alguns trechos da longa conversa.



Psicodelia

“Eu tô psicodélico, estão entendendo? Começaram a me dar umas injeções de o que agora substitui penicilina (era cortisona, ele lembrou depois). Fiquei sem memória, mas ahhh... não, é a mesma coisa que tomasse ácido. Começaram me dar uns remédios, eu fui num, eu tava fumando um baseado, vocês querem? Eu tenho. Aí comecei rir muito, estava com um amigo meu aqui, ai começou a sair sangue do meu nariz e ele disse nossa! Que é isso? Eu falei assim, não é nada não. Aí no outro dia eu estava em um restaurante com outro amigo meu, esse mais sério, aí de novo, ele disse ‘assim não é possível, você está em uma idade que tem que se tratar’, eu falei deve ser uma sinusite mal tratada, porque eu cheirei muita cocaína e quando tem a cocaína boa no Brasil, eu cheirei toda e não deixei pra mais ninguém. Aí fui fazer um exame, essas coisas de por a gente dentro de máquinas, psicodélico!”

E Zequinha trocou de óculos...

“Eu com essa coisa de enxergar com essa visão tripla, enquanto eu to deitado, acordo eu vejo tudo nítido, eu levanto já atravesso aqui esse espaço, saio do quarto, entro no banheiro, lavo a cara, escovo os dentes e aí venho aqui pra cozinha. Quando chego na cozinha eu já estou inteiramente psicodélico”.

“Eu fiz sete anos de teatro profissional em São Paulo, a maior porcaria que eu já fiz na minha vida, mas foi ótimo, porque eu trabalhei muito enquanto eu estava com calor na bacurinha, o teatro foi bom, entrava um dinheirinho e eu já escrevia sobre rock”



Música

“Ai, banda psicodélica brasileira, a pior de todas e o grande nome que foi é Mutantes, eu gostava, não sei se tenho do primeiro disco dos mutantes, os outros eu achava um horror. Eram muitos mal informados, era um deboche que não era nem tropicália, nem era da personagem deles, era uns engraçadinhos de São Paulo, Rita Lee a rainha da afonia, cantora tem voz bonitinha, Arnaldo inteligente mais doido, Sérgio insuportável.

Eu não estou podendo fumar, mas vou fumar, to com minha... Eu vou te falar uma coisa sincera. Depois dos Mutantes eu não conheço mais banda psicodélica brasileira não!”




“Módulo 1000 era chato, não era psicodélico não! Era muito chato e tocava muito mal e essa ainda eu peguei dois shows em 72, entende? (...) Ah, o show era muito chato, o Módulo mil teve o seguinte: era muito conceituado no subúrbio como a última, da última da grande da última descoberta, aí eles posavam de grande grupo. Eu fui vê-los num festival promovido por eles, que eles eram a maior atração, o resto das bandas nem com lobotomia eu vou te levar. Eles ficavam em tendas, fazia aquela coisa tipo Woodstock, o camarim que eram especiais, muito cheiro de incenso... um lixo”.

“O Som Imaginário de Minas? Uma porcaria, aquilo era bad trip, aquilo era bad trip não era psicodelia. Som Imaginário nunca foi psicodélico aquilo é mineiro bichado é muito chato. O Milton com aquela voz de branca, não! Eu gosto de Wagner Tiso, não acompanho a carreira dele não, ele debocha muito de mim porque eu falei que o Clube da Esquina, nem que fosse uma esquina da Broadway eu passava, aí ele vivia com ódio de mim”.


Língua de cascavel

“Eu não escrevia sobre música brasileira, em Minas eu escrevia, minha coluna era aberta, mas em São Paulo não! E sabe porque? Eu sempre tive língua de cascavel. Era mais cômodo pra mim falar das bandas do estrangeiro. Nunca mexi com os daqui, porque brasileiro tem mania de ser orgulhoso, oh bando... Aí teve um dia que falei mal de Caetano, aliás somos amicissímos... Mas dei uma cutucada nele, pra que? Os alibabás e os 400 mil baianos ficaram com ódio”

Mas do que ele gostava, afinal?

“Ave Sangria era maravilhoso! Eles fizeram um disco só, né? Aquela mulher vestida de pássaro, as pessoas do Ave Sangria eram muito doidas, tinha um que era colega meu no Jornal da Tarde, eu lembro que quando eu entrei com a coisa, ele chegou pra mim e falou: ah, vc gostou? Eu disse assim: adorei! E ele disse: é, eu sou desse grupo”.

Há poucas semanas, a Aline e a Ana estiveram novamente na casa de Ezequiel. Elas levaram a ele um compilado com várias bandas da época, para ele se lembrar. Entre elas, o Ave Sangria, que Zeca não ouvia desde 1969 - de acordo com o próprio.

A seguir, um vídeo com a panorâmica da casa:





Obs.: as opiniões acima expressas são de responsabilidade de Ezequiel Neves

Vida longa a Zeca Jagger!

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Zé Rodrix e Tavito: por dentro do Som Imaginário

Na última segunda, eu e Aline fomos ao Clube Caiubi entrevistar nada menos do que Zé Rodrix e Tavito, personagens fundamentais na construção do Som Imaginário. Foi incrível! Os dois, muito simpáticos e solícitos, contaram histórias hilárias daquela época que definem como "a melhor de suas vidas". Amigos de décadas, tinha horas em que eles esqueciam da entrevista e lembravam das histórias que passaram juntos. E Zé Rodrix dizia: "lembra, Tavitinho?".



Já falamos um pouco da banda por aqui: era um caldeirão sonoro formado por Wagner Tiso (teclados), Luís Alves (contrabaixo), Robertinho Silva (bateria), Tavito (violão), Fredera (guitarra), Zé Rodrix (teclados, voz e flauta), Laudir de Oliveira (percussão) e Naná Vasconcelos (percussão). O dream team da mpb formou-se em 1969, no Rio (não em Minas, ao contrário do que muitos pensam) para acompanhar um estreante mineiro no Teatro Opinião. O show "Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário" foi um tremendo sucesso e rendeu ao grupo seis meses de temporada, fama e um contrato com a Odeon para gravar um disco.


Robertinho Silva, Naná Vasconcelos e Milton Nascimento

"Som Imaginário" saiu em 1970 e colocou o grupo no topo do desbunde. Zé Rodrix e Tavito confirmam as lendas que se formam ao redor da banda: não, não ensaiavam, tocavam de improviso e eram todos muito, muito doidões. A Odeon deu toda a liberdade criativa - e seria um prejuízo se não fizesse isso. Cada instrumento vai para um lado, mostrando as habilidades de cada um dos músicos, num resultado harmônico totalmente vanguardista. E os integrantes... eram daquele jeito: cabeludos, doidões, hippies, maconheiros, magricelas, viviam pelados,pregavam a paz e o amor livre, acreditavam em um mundo melhor. Eles chegaram a tocar na Globo, no programa Som Livre Exportação e acompanharam Gal Costa, que já era diva. E, no underground, viveram o desbunde carioca em sua melhor forma - conviveram com outras bandas vanguardistas da época, como o Módulo 1000, e tocaram no Festival de Guarapari, o famigerado Woodstock brasileiro.

Quase quarenta anos depois, Zé Rodrix e Tavito lembram as boas e as más épocas da banda. Os dois saíram do Som Imaginário por problemas e divergências internas, e caíram no sucesso: Elis Regina gravaria no mesmo ano "Casa no campo" imortal composição dos dois.

Se você for de São Paulo e quiser conhecer Zé Rodrix e Tavito, eles vão direto no Caiubi. Se não, assista a alguns trechinhos do papo:




quarta-feira, 16 de maio de 2007

O outro lado da psicodelia de Ronnie Von

Segunda feira, estivemos na casa de Zé Guilherme. Economista, consultor empresarial e músico, entre outras atividades, ele foi o guitarrista da banda B-612, que gravou com Ronnie o antológico disco de 68.

Com 17 anos na época, Zé conta que era conhecido como "Zé Louco" e era o único não-careta na banda. Diz, também, que grande parte dos arranjos 'psicodélicos' do disco, as guitarras ultra distorcidas e os sons estranhos, foram viagens musicais de um bando de garotos - da banda, não de Ronnie. Damiano Cozzela, o maestro produtor, apenas teria dado um "toque final" e, em cartos casos, até "estragado" o trabalho dos garotos.

O papel de Ronnie teria sido apenas o de consentir o trabalho dos músicos - e a façanha do disco, diz Zé, não é do cantor, nem de Cozzela, nem de Arnaldo Saccomani, o autor da maioria das músicas, mas das pirações dos meninos que estavam ligados na música de fora.

Polêmicas à parte - deixaremos elas para o livro -, fiquem com os ótimos vídeos de bastidores, gravados na entrevista, em que Zé comenta algumas músicas.



Tem vários outro vídeos, o upload tá meio lento mas já, já eles pintam aí.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Entrevista: Luís Carlos Maciel


17 de março, sábado fresco no Rio de Janeiro. Comemos uma feijoada e fomos direto ao Leblon, conversar com o Guru da Contracultura: Luiz Carlos Maciel. Já falamos bastante dele no blog: foi editor da Rolling Stone brasileira, colunista do Pasquim, hippie e intelectual.

Maciel nos recebeu sorridente e abriu o apartamento cheio de livros, quadros e mobília antiga. Sentou na poltrona, ligamos o gravador e ele disse:

- Não quero que vocês interpretem como má vontade, mas eu não tenho muita coisa pra dizer, não! Acho que vai ser meio decepcionante, eu penso que pô, as meninas vão achar que eu tô de sacanagem!

Que modéstia, Maciel! Foi mais de uma hora de gravação, initerrupta. Ele passou sua impressão madura, de trinta anos depois, dos conceitos que foram abordados em "De volta para o futuro".

Ele começou falando da contracultura...
"Por causa da guerra do Vietnã, uma das manifestações mais dramáticas era a queima de certificados militares. Os rapazes da época queimavam seus certificados de alistamento militar e conseqüentemente se tornavam marginais. Foi dessa marginalização que cresceu o movimento hippie, porque eles viraram hippies, fantasiados, usavam aquelas roupas coloridas, deixavam o cabelo crescer, passavam a fumar maconha o tempo inteiro, tomavam ácido de vez em quando e começou essa chamada contracultura.

Havia uma indignação contra o sistema, contra o mundo organizado que parecia uma organização louca, que destinava a criar guerra, a matar gente e adoecer as pessoas, transformar o homem comum, careta, o homem médio em neurótico que só servia para enriquecer os consultórios dos psicanalistas e coisas semelhantes, então começaram a fazer um tipo de manifestação cultural que procurava fugir dos parâmetros, ser uma coisa contra, uma coisa que a imprensa chamou então de contracultural, eu falo pelos cotovelos, né? Não sei nem o que você me perguntou (risos)".

Depois, falou da valorização do louco...
"A maioria dos meus melhores amigos foram internados. Em culturas primitivas a realidade imediata não era tão estratificada, absoluta, como é na nossa cultura, é uma possibilidade, a realidade tinha infinitas possibilidades. Essa fronteira entre o mago, o iluminado e o louco é meio imprecisa, então a contracultura valorizou até muito o louco.


Muitas pessoas que participaram da contra cultura acabaram em hospícios mesmo, foram internados. Uma das coisas que determinavam esses internamentos era uma substância que foi fundamental na contracultura, foi de uma importância radical, que foi depois sufocada pelo sistema, que foi o ácido de
dietilamida, o famoso LSD ou ácido para os íntimos.

A pessoa tinha certeza de que estava experimentando uma expansão da consciência, pode-se dizer que era uma ilusão, mas eu por exemplo não acho que era uma ilusão. Eu sei que quando eu estava viajando de ácido, eu tinha um conhecimento muito mais amplo da realidade do que eu tenho agora nesse momento, eu sei que minha consciência agora está contraída em relação a como minha consciência se encontrava durante essas experiências. Essas experiências com ácido eram muito reveladoras, as pessoas se sentiam oprimidas até mudar sua maneira de viver e de ver as coisas, isso tudo em graus diferentes e modalidades diferentes conforme os indivíduos, tem uns que descobriram que o dinheiro é o mal da humanidade, e é!


Isso é uma coisa indiscutível, todos os louvores são feitos em nome do dinheiro, você não pode condenar o dinheiro, porque na nossa cultura ele é mais sagrado que Deus. Todo mundo aceita o dinheiro como se ele fosse parte da realidade natural, como se fosse o sol, feito a lua, as estrelas, o mar e o dinheiro. O ser humano e o dinheiro são as coisas intocáveis, então o cara toma ácido e ele acha que descobre que esse Deus intocável é um fetiche, é uma sacanagem que foi criada pelo próprio homem, então ele chegava e pegava todo dinheiro que tinha no bolso e rasgava, queimava, louco! E quem rasga dinheiro é louco! Então já logo internava, já dava uns choques,pra ele botar os pés no chão, né?

Quem estivesse no estilo de vida da contracultura ou psicodélica saía para se divertir e era considerado maluco, não havia diferença, maluco, tinha enlouquecido, pirou! E o termo para classificar essas pessoas era esse, doidão, muito doido e que nas internas viravam um elogio, 'fulano muito doido' quer dizer grande sujeito, ótimo sujeito, você tem que conhecer porque ele é muito doido".

E a Madalena?
"A viagem de ácido revelava aos rapazes a sua porção feminina,vamos dizer assim... a mulher que tem dentro deles e nas moças a sua porção masculina, o homem que tem dentro delas, se tivessem já uma certa tendência, pronto! Aaah, então diziam assim, 'ah, esses meninos tomam ácido viram bichas, viram bichas porque eles queriam ser bichas'. Mas estavam reprimidos, não ouviam as coisas direito e aí o ácido revela, outros não, outros viam sua parte feminina, viam que isso só enriquecia a personalidade deles, mas não os tornavam homossexuais necessariamente.

Tinha aparecido no mercado clandestino um ácido verdinho, então o mito era que os caras do Yes tinham tomado o ácido para fazer aquele disco e por isso que tinham feito a capa verde. O ácido era verde e tinha uns nomes pitorescos, esse era o green não-sei-o-que. Era um ácido particularmente forte, muito forte mesmo e eu... Bom isso não posso contar.

- Ahhhh pode!!!

Não vou contar porque seria mal interpretado!

- Imagina, hahahahahahaha

Eu tomei esse ácido! Na primeira batida do ácido, a mais forte, eu fiquei completamente desentendido, não sabia aonde eu estava e nem quem eu era, me deu uma baixada mais ou menos eu me recuperei, olhei para minha mulher na época e disse assim: “meu nome é Madalena”. Aí ficaram me sacaneando sempre, diziam: “quero falar com a Madalena!”. Mas nem pintou a Madalena, e não fiquei homo por causa disso não!

- Foi só uma expansão de consciência!

Uma expansão de consciência! Disse bem! Agora você já está entendendo, só tá faltando tomar acido agora também, para saber como é que é na pratica".

- ...

As comunidades hippies: para onde foram os outsiders

"Eu conheci algumas e tudo, tinha uma que eu visitava sempre aqui no Rio de Janeiro, mas nunca morei em comunidade não! O negócio da contracultura, de viver em comunidade, eram todos os desgarrados de família que se juntavam. Também se juntava os tipos mais heterogêneos, né? Então podia acontecer de tudo, era muito difícil, se pra dois viverem juntos já era difícil, imagina uma cambada de gente. E até as coisas como amor livre e etc, acabavam virando briga porque o famoso problema do ciúme não foi superado, nunca vi ser superado, sempre diziam “ahhh não tenho ciúme”, e tinha, e acabavam brigando.

- Você acha que aqui no Brasil pela nossa cultura latina, machista foi diferente da realidade americana?

Não sei, talvez aqui as perturbações tenham sido mais graves.

- E pra onde foram essas pessoas?

Existem comunidades hippies até hoje no interior. Outro dia veio um rapaz aqui que tem um centro cultural em Vargem Grande aqui no Rio de Janeiro. Mas é muito difícil manter isso, as comunidades rurais em que as pessoas saem fora do mundo e criam seu próprio mundo. Algumas existem até hoje e os outros cortaram o cabelo, como eu, e ficam fingindo que um dia brigou com todo mundo, mas é um fingimento estratégico, porque você sabe que o maluco tem que enganar os caretas de que ele é careta também, porque senão ele está se arriscando demais, pode ser internado, pode ser choque, pode às vezes ser preso até, ser espancado então o maluco esperto passa por careta.

Até aí, foram só uns 20 minutos de conversa. Logo mais, o resto da entrevista.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Salve Jorge... Mautner - A Psicodelia Kaótica com K


Eu sou doidão, eu sou doidão
Eu sou doidão, doidão, doidão
Mas tenho bom coração
Bão ba la lão, bão ba la lão
Ah, me esqueci do resto da canção
Que papelão
("Doidão" - Jorge Mautner)


Virada Cultural - PARABÉNS para a organização da Virada Cultural. Apesar da Globo ter enfatizado o episódio Racionais MCs, o recorte foi mais do que injusto. A cidade estava linda, as pessoas estavam na rua, o Centro de São Paulo estava irreconhecível. Todos respirando arte - todos os tipos de arte. Muito bom! Quem foi, e circulou, concordará. A Sampa romântica da canção...

Bom, voltando ao tema do post: Jorge Mautner

*estamos marcando entrevistas com nomes que não fazem parte da nossa lista de personagens, mas que de alguma forma estão relacionados ao pensamento e à arte psicodélica, para uma parte de depoimentos do livro*

Domingo pós-primeira-rodada de shows, 6 de maio, 8h30 - sim... CEDO. Pouquíssimo tempo de espera e eis que sai do elevador, Jorge Mautner. Instrumento em mãos e mala pronta para embarcar, mas sem antes dar uma simpática entrevista...

Encantador. De inteligência única. Entrei no hotel com receio e saí apaixonada...rs... Brincadeiras à parte, Mr Mautner definiu o indefinível como poucos, apresentou uma nova abordagem da psicodelia - até então pouco explorada por nós, filosofou, e enfim definiu-se como Psicodélico Kaótico com K. Aqui, alguns trechos... o resto... só no livro!

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"Tudo que existe em um lugar reflete no outro. Esse novo movimento [a psicodelia] nada mais é que um novo existencialismo, uma afirmação da liberdade feminina e todas as condições que hoje se fala dos direitos humanos. Eu acho que é o ápice do romantismo na indústria. É o rock sem fronteiras, com musica erudita, etc. Aqui já se romperam as barreiras com a liberdade." J.M.

Neste bate-papo, Mautner faz questão de enfatizar a importância da imagem no contexto psicodélico. Para ele, a psicodelia tem a "missão" de exprimir, tornar paupável, os sentimentos, as imagens, as sensações causadas pelas alucinações psicodélicas estimuladas pelo LSD, pelos cogumelos, mas principalmente pelo espírito romântico.

Interessado no assunto e tentando explicar seu ponto de vista, pergunta quais bandas vamos abordar no livro... Tenho um papel com todas elas anotadas, confesso, para não esquecer... Ele olha...

"Ahhhhhhh... pela lista vc já tem aí... olha só, Som Imaginário, né? O nome já diz e muito. Os outros do nordeste... deixa eu ver aqui... isso! O Ave Sangria! As imagens e os temas deles... O Lula Côrtes e o Zé Ramalho... imagina... é isso: é esse romantismo que tem algo de exaltação, de pirataria, mas tem uma grande preocupação com a harmonia, uma preocupação com a linha, com o equilíbrio, e tb é uma coisa muito trabalhada, o psicodelismo... ele tem ... embora seja muito de irradiar emoções, sons, sensações ele tem uma preocupação muito grande organização tb, uma meticulosidade... em todos eles vc vê."

Sim, ele sabia do que estava falando! Se pararmos para observar as músicas do Ave Sangria, ouvir, sentir a canção, criamos as imagens perfeitamente na cabeça. O apelo visual da banda, tanto nas capas coloridas, quanto nos shows performáticos... Entendemos direitinho a interpretação de Mautner em relação à psicodelia.

"[O Ave Sangria] Tem uma pulsação vital muito forte. Elas já não são músicas depressivas, elas indicam o caminho da alegria - mas uma alegria que ainda não precisa ser só gargalhada... solar... pode ser até uma alegria melancólica, nesse clima de romantismo, impressionismo. Mas eles [os psicodélicos] ainda tem uma preocupação de grande harmonia. Finalizar, de enquadrar direito. Todos eles são muito claros, na intenção"

Mas afinal Sr Jorge, é isso aí? De onde vem essa loucura romântica?

"Cada geração tem que reconquistar a sua liberdade, então sempre vai surgir a novidade... que é a somatória lá de tras né, da pré-história, da nossa história, revoluções transformadas em arte e comunicação, se transfromando continuamente... aliás o Brasil é o exemplo máximo disso por causa da amálgama. "

Tá, ok, entendido!

Falamos de classificações, de definições e ao contrário do que a grande maioria prefere fazer, simplesmente dizer que classificar é errado, ruim, ele filosofa. Classificar, em sua visão, é um jeito de aprofundar e organizar. Desde que não exista a necessidade de se prender aos rótulos, todo tipo de definição é válida. "A classificação é uma tentativa preponderante racional de tentar interpretar a emoção que aquele fenômeno está te despertando. E na profundidade tudo tá parado e em movimento ao mesmo tempo. E na visão intuitiva dessa arte psicodélica você já tem essa junção... como arte", encerrou.

Palmas para Jorge Mautner!

Para quem não conhece... CONHEÇA! www.jorgemautner.com.br

Para os que conhecem e queiram ver... ANTES E DEPOIS:

Jorge Mautner na década de 70, cantando Guzzy Muzzy, do disco homônimo de 1974

Jorge Mautner e seu fiel parceiro Nelson Jacobina recém cantando "Herói das Estrelas"

terça-feira, 24 de abril de 2007

Alma rebelde, cara de mocinho

Acabamos de voltar da casa do Ronnie, elegantérrima, no bairro chique do Morumbi.

Visivelmente surpreso com o sucesso repentino que está fazendo - são cinco ou mais entrevistas por dia -, e também bastante cansado, Ronnie foi gentil como esperávamos. Foi uma hora de gravação, cheia de boas histórias e a afirmação clara de que só agora sua fase psicodélica - ou "surrealista", como ele prefere definir - está tendo o reconhecimento que merece.


Ronnie é bem diferente dos outros personagens do livro. Vem de família riquíssima, tradicional, estudou, tem bons modos. Mas, muito jovem, veio para São Paulo (ele é do Rio), largou tudo e foi morar numa pensão mequetrefe no centrão. Claro que a beleza estonteante do rapaz ajudou, e logo ele foi contratado por uma gravadora. Sempre orientado pelo "departamento comercial", ele vendia horrores fazendo versões e músicas bonitinhas.

Hoje, tem horror ao primeiro disco. Ficou puto porque a Universal o relançou. Afirma e reafirma que o estereótipo de bom moço foram os outros que colocaram - e isso ele nunca foi. Os discos malucos dele, entre 68 e 72, foram uma tomada de fôlego, a oportunidade para mostrar quem ele realmente era. E ele afirma isso: aquilo é que era ele, não "Meu bem" ou "A praça".



Ronnie lutou, lutou, lutou contra o estereótipo que lhe colocaram - mas, no fim, acabou se rendendo. Com mágoas, mas se rendeu.

Veja um aperitivo em que explica porque não entrou na onda do ácido:


Mais disso, só no livro. Qdo transcrevermos, colocamos um trechinho aqui.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Vendendo meu peixe: Entrevista com Lanny Gordin


Bom... estarei postando pois queria estar vendendo meu próprio peixe....


Ele é rei! Não é Roberto, nem Pelé mas é rei – da guitarra como Jimi Hendrix e outros grandes nomes. E o monarca tupiniquim acaba de lançar mais um de seus projetos, depois de um tempo em retiro. Duos, novo disco de Lanny Gordin, produzido por Péricles Cavalcanti e dirigido por Glauber Amaral chega ao mercado com clássicos – hits e hitmakers da MPB. Nessa entrevista, Lanny fala sobre o que criou de diferente neste CD. Ele explica seu novo jeito de tocar (poisé, ele tem MAIS um novo jeito de tocar), e fala sobre o estilo que criou. Glauber Amaral conta como surgiu a idéia do projeto e Edgard Scandurra revela como foi trabalhar com o mestre guitarrista.


Confira!




segunda-feira, 19 de março de 2007

A estrela, o filósofo e o louco


Ladies n Gents,

nossa ida ao Rio de Janeiro foi DEMAIS. Sem babação de ovo, mas as conversas renderam mais do que o esperado, a receptividade foi impagável e os personagens... ah... estes são indescritíveis.

Agradecemos Santo Expedito pela Graça Alcançada, Nelson Motta pelo café, Luis Carlos Maciel pela aula e Ezequiel Neves pela cerveja!


Fiquem atentos... nos próximos capítulos:


"Nessa época, vc tinha que ter autorização pra ser rebelde..." N.M.


"Uma vez eu tomei um ácido e encanei que era a Madalena..." L.C.M.


"Os Mutantes eram ruins. A rita era afônica, o Arnaldo era inteligente, muito inteligente mas louco e o Sérgio... esse era um chato..." E.N.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Enfim, o plano!


Pra quem quiser saber... este é o plano!



Pré-projeto
Geração Bendita/ Cê tá pensando que eu sou Loki, bicho?
A história obscura da psicodelia brasileira

Aline Maria Ridolfi
Ana Paula Tomasinni Canestrelli
Tatiana Kudrjawzew de Mello Dias
4o JO C

Orientador
Prof. Wellington Andrade

Psicodélico
Psico + el. Delo

Psic (o): do grego psukhe.
1. alma, em tempos conexos com a religião e a metafísica
2. Espírito, princípio pensante, atividade mental
Delo: do grego Delos.
Visível, claro, manifesto, evidente

1. Que produz efeitos alucinógenos (p. ex, o LSD)
1.1. Relativo a esse efeito
2. Diz-se da produção intelectual elaborada sob o efeito de um alucinógeno
3. p. ext. diz-se de qualquer produção intelectual que se assemelha ou procura imitar as obras criadas sob efeito de alucinógeno

Louco (adj.): afetado por um alto grau de independência intelectual.
(Ambrose Bierce)



1. Delimitação do Assunto:

O presente trabalho tem o objetivo de levar ao conhecimento do público um gênero pouco explorado da música nacional: a psicodelia. Serão apresentadas bandas e personagens que constituíam a cena underground no final da década de 60 e início de 70, que se expressavam por meio de uma atitude “psicodélica”. Surgidas em um contexto pós-tropicalista – ou melhor, criadas após o rompimento de padrões sonoros propostos pelo tropicalismo – esses criadores se dedicavam ao rock, aos ritmos regionais e, principalmente, à experimentação sonora.

O trabalho irá contar a história de alguns destes artistas fundamentais para o entendimento do período – mas que, até hoje, permanecem desconhecidos do grande público. Eles participaram de uma cena alternativa que, em sua maior parte, não chegou a eclodir na grande mídia – salvo poucas aparições como acompanhantes dos músicos tropicalistas.

A idéia do tema surgiu quando o grupo conheceu tais bandas e seus discos. Na internet, é possível encontrar blogs e publicações online sobre essa cena – e eles alcançam um sucesso considerável de público. Foi ali que vimos a quantidade de boas histórias ligadas ao gênero, que merecem um tratamento menos folclórico, e mais jornalístico.

A psicodelia brasileira, sem dúvida, começou no tropicalismo. Os maestros Rogério Duprat, mais, e Júlio Medaglia, menos, são os mentores musicais do tropicalismo – e são responsáveis pelo rompimento formal de padrões da MPB. O tropicalismo chocou a ala conservadora da música nacional, e a psicodelia brasileira é conseqüência disso. Se os tropicalistas romperam padrões para incluir guitarras elétricas em seus sons, essas bandas alternativas seguiam o caminho inverso. Elas eram formadas por adolescentes, que gostavam de rock e que não se renderam à ortodoxia do ritmo. Pelo contrário: aprenderam que poderiam incluir novas sonoridades ao som roqueiro já consolidado.

A riqueza dos sons é impressionante – alguns álbuns dessa época foram redescobertos e hoje os LPs originais valem milhares de dólares no mercado europeu. Poucos músicos da época tornaram-se conhecidos hoje, como, por exemplo, Zé Ramalho e Lulu Santos, que foram integrantes de bandas de rock psicodélico. A maioria dos garotos, hoje, são senhores anônimos, com vidas comuns. Alguns enlouqueceram graças à enorme quantidade de drogas ingeridas. Outros morreram. Quase nada sobrou, à exceção da memória das loucuras da época.

É incrível observar a fusão proposta por essas bandas. Talvez este seja o ponto em comum entre todas elas: a experimentação. A sonoridade de cada uma, pelo contrário, é independente de qualquer gênero. Observa-se um estilo base, mas é possível encontrar em um só disco rock, baião, folk, bossa nova e outros sons. As letras também são ponto fundamental em toda esta trajetória. Menções a extraterrestres, drogas ilícitas, cidades do interior, personagens hipotéticas, bandas internacionais, lingeries, demônios e surtos esquizofrênicos, flores que falam... tudo era motivo de composição. É a arte livre. A não-imposição de limites. A quebra de tabus em uma época marcada pela repressão do Estado.

Havia muito mais do que música em jogo. Era um estado de espírito adotado por pessoas diferentes. O modo de se vestir, de viver, de compor, de mostrar a arte em suas apresentações, tudo era marcado fortemente pela característica psicodélica. Enquanto Andy Warhol criava capas alucinadas para artistas internacionais, desenhistas brasileiros faziam obras-primas também em capas nacionais. Mas a loucura era incômoda e a maioria dos artistas envolvidos nesta fase era barrada em gravadoras, ou censurados, na hora de lançar os discos. A maioria fez carreira independente, em âmbito regional.

Muito se falou da psicodelia estrangeira. A era internacional do LSD trouxe à tona faces obscuras de bandas como os Beatles e os Rolling Stones e revelou nomes como The Doors, Jimi Hendrix, Pink Floyd, Steppenwolf, entre outros. O Brasil não ficou de fora do “movimento”. Foi uma época de grande produção artística, especialmente musical. Apesar de pouco conhecido, trata-se de um período extremamente rico; é notável a influência, talvez um pouco camuflada, que os tais músicos têm em relação ao que está no mercado atual, ainda que independente.

Hoje não existe nenhuma publicação específica sobre essa cena. Mesmo que não possa ser chamada de “movimento”, a psicodelia brasileira tem um começo e uma trajetória – que percorre São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Recife, principalmente. E, ao contrário do tropicalismo – que foi extinto oficialmente por seus músicos – ela permanece até hoje, influenciando bandas cultuadas como Júpiter Maçã e Mopho.

O trabalho irá retratar as bandas e personagens que existiram durante um período específico – 1967 a 1975 -, em quatro localidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Rio Grande do Sul. O tropicalismo também será abordado em um capítulo introdutório – entretanto, no livro, a meta principal é contar histórias desconhecidas e fazer o público mergulhar no som e na estética psicodélica.

Escolhemos um formato alternativo que satisfizesse a qualidade da mensagem que pretendemos passar, sem criar ruídos na informação. Um livro-reportagem, com ensaio fotográfico e CD de áudio (com uma seleção de músicas relacionadas às histórias que venham a fazer parte do conteúdo) como acompanhamento. Acreditamos que assim atingiremos nossos objetivos, contando a história, mostrando visualmente as imagens da época, dos envolvidos, do estilo, das capas de discos, dos shows, provando o que falamos com as canções das bandas mencionadas e, acima de tudo, dando liberdade para que o leitor tire suas próprias conclusões a respeito de toda esta experimentação sonora. Com estes três elementos pretendemos fazer com que o leitor tenha a exata noção do que acontecia. Que ele mate a curiosidade que ganhará ao longo das histórias contadas.


2. Procedimentos metodológicos e técnicos

a) Literatura específica
A literatura específica nos ajuda a levantar os personagens do livro e avaliar a importância deles no cenário. Para este trabalho, há dois tipos de literatura: a teórica, onde a contracultura é avaliada por acadêmicos e especialistas (como em “Anos 70: Ainda sob a tempestade”, coletânea de textos do filósofo Adauto Novaes), que nos ajuda a entender o pensamento da época, e a histórica. Esta é fundamental para acompanharmos a trajetória de alguns personagens essenciais na história que contaremos – como Arnaldo Baptista, dissecado em “A divina comédia dos Mutantes”, livro de Carlos Calado. Como não vivemos a época, a literatura nos passa um olhar panorâmico do que foram aqueles anos e, principalmente, do que era para um jovem embarcar naquelas viagens, naquela época.

b) Entrevistas com jornalistas
Assim como a literatura, as entrevistas com jornalistas apresentam um panorama da cena cultural da época. Entrevistaremos alguns personagens fundamentais no jornalismo musical da época – Ezequiel Neves, Nelson Motta, Ana Maria Bahiana, Luiz Carlos Maciel e Fernando Rosa -, que, de certa maneira, têm uma visão global daquela cena musical. Eles conhecem bem os personagens e sabem apontar os artistas mais representativos da época. Por isso, antes de partirmos para as entrevistas com os músicos, é importante termos uma visão geral desta cena em especial. E são essas primeiras conversas que nos proporcionarão isso.

c) Pesquisa de periódicos
Periódicos da época também serão analisados. É a melhor maneira de saber como a mídia cobria a cena e etntar entender os hábitos da época. Além de revistas culturais, como a Rolling Stone brasileira e o Pasquim, pesquisaremos também grandes publicações.

d) Entrevistas com os personagens
- Entre os meses de março e setembro faremos entrevistas com nossos personagens. Partiremos dos tropicalistas Tom Zé, Jorge Mautner e Lanny Gordin.
- Entrevistas individuais e em grupo com os personagens envolvidos, músicos que participaram da psicodelia nacional, parentes e amigos dos escolhidos. Entre eles, Ronnie Von, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, Serguei, Os Baobás, Spectrum, Módulo 1000, Lula Côrtes, Zé Ramalho, entre outros.
- Entrevistas com o público da época. Os fãs dos artistas em questão, pessoas que participaram da psicodelia nacional, como Luiz Calanca, por exemplo, dono da loja e selo musical Baratos Afins.
- Análise e avaliação do material coletado.

e) Pesquisas em gravadoras, catálogos de selos antigos, sebos e lojas de discos


Cronograma de Desenvolvimento:

Fase 1 – dezembro de 2006 a março de 2007
- Leitura das obras escolhidas para pesquisa
- Estudos teóricos
- Pesquisas em jornais e revistas
- Ensaios fotográficos com capas de discos
- Pesquisa de fotos aleatórias da época

Fase 2 – abril a junho
- Entrevistas com músicos, artistas, parentes, amigos, fãs, jornalistas e especialistas
- Ensaios fotográficos durante as entrevistas
- Preparação do material recolhido (transcrição de fitas, tratamento de imagens)
- Requerimento de faixas musicais diretamente com os entrevistados (com cessão de direitos autorais) para o CD
- Estruturação dos capítulos
- Redação dos primeiros capítulos – Entrega do trabalho para qualificação

Fase 3 – julho a setembro
- Redação dos capítulos restantes
- Redação da introdução e agradecimentos
- Escolha das imagens
- Escolha das faixas do CD

Fase 4 – outubro
- Entrega do trabalho para críticas e avaliações de convidados, especialistas e orientador
- Correções/ Revisão
- Edição
- Diagramação, impressão e encadernação das cópias
- Entrega do projeto à Coordenadoria de Projetos Experimentais

Estruturação inicial de capítulos:
A estruturação dos capítulos dar-se-á da seguinte forma:

Capítulo 1: Tropicalismo
A psicodelia brasileira só foi possível a partir da quebra de barreiras realizada pelos tropicalistas. Tom Zé, Jorge Mautner e Lanny Gordin –selecionados por representarem, em sua força máxima, o rompimento de padrões – falarão sobre o tema.

Capítulo 2 em diante: Reconstrução da cena
Foram os tropicalistas que descobriram Os Mutantes – expressão máxima da psicodelia nacional -, Os Baobás e The Beat Boys, entre outras bandas de rock psicodélico. Por isso, começaremos por São Paulo, terra natal da cena. Depois, partiremos para as histórias cariocas, gaúchas e, por fim, a tardia cena pernambucana.

Final: Balanço de influências
Traçaremos um paralelo entre o que aconteceu e a influência que o experimentalismo exerce hoje.


Bibliografia Básica:

BAHIANA, Ana Maria. Almanaque Anos 70. São Paulo: Ediouro, 2006.

NOVAES, Adauto. Anos 70: Ainda sob a tempestade. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2005.

BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes: MPB anos 70: 30 anos depois. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2006.

FERREIRA, Glória. Escritos de Artistas: Anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

BUARQUE DE HOLLANDA, Heloísa. Asdrubal trouxe o trombone: Memórias de uma trupe solitária de comediantes que abalou os anos 70. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004.

DIAS, Lucy. Anos 70: Enquanto corria a barca. São Paulo: Ed. Senac São Paulo, 2003.

MACIEL, Luiz Carlos. Geração em transe. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

CALADO, Carlos. A divina comédia dos mutantes. São Paulo: Ed. 34, 1995.

DEL RIOS, Jefferson. Bananas ao vento: meia década de cultura e política em São Paulo. Rio de Janeiro: Senac Rio, 2006.

Arquivos do jornal A Folha de S. Paulo

Arquivos do jornal O Estado de S. Paulo

Arquivos da revista Rolling Stone brasileira

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

É isso aí, bicho


Pois é, bicho. Aqui começa a nossa suada e sofrida trajetória, para conseguir documentar a tal piscodelia brasileira. A idéia do tema surgiu ano passado. Conhecemos alguns discos da época e vimos que o experimentalismo e a psicodelia no rock nacional começou antes e foi até bem depois d´Os Mutantes. Felizmente. Nos apaixonamos.
O trabalho de conclusão de curso será um livro-reportagem, que virá com uma coletânea em cd com as bandas mais representativas da época. Ok, tema e formato definidos, vamos ao trabalho.

No ano passado, fechamos o grupo - Tati, Aline e Ana - e escolhemos nosso orientador. Professor de jornalismo cultural, Jefferson Del Rios, viveu - intensamente, diga-se de passagem - toda a psicodelia brasileira. Perfeito.

Primeiro problema: delimitação do assunto. E aí, onde começa e onde acaba isso? O que, afinal, pode ser definido como psicodelia brasileira? Muita discussão, uma longa conversa com o Calanca, da Baratos Afins, depois e... nada. Nenhuma luz. Durante as férias, muita leitura. Ana Maria Bahiana foi quem conseguiu iluminar um pouco nossa cabeça e o Fernando Rosa, o Senhor F, trilhou melhor o nosso caminho.

A entrega do pré-projeto: 7 de março. Fodeu, pensamos em coro. Vamos correr. Depois de uma reunião na Mercearia São Pedro, resolvemos melhor nossos personagens e por onde começar: vamos aos jornalistas, quem viu de camarote a cena, e o mestre inspirador, Ronnie Von. Até março, então, já devemos ter entrevistado Ana Maria Bahiana, Ezequiel Neves, Fernando Rosa e Ronnie - que grava todos os dias lá no prédio da facul.

Já contatamos todos - e Ronnie, pela facilidade de acesso, seria o primeiro. Pediram uma carta da faculdade, explicando o projeto e solicutando a entrevista. Depois de muitos emails (não respondidos) ao Jefferson, a bomba: ele foi demitido da faculdade.

Ótimo. Em cima da hora e sem orientador, é assim que começa a nossa história. Com a ajuda de quem sabe ou quer saber... é isso aí bicho!